Manifesto da 5ª edição do Março de Lutas

O ‘brado retumbante’ por reparação no Brasil rumo à 2ª Marcha Nacional de Mulheres Negras

Brasil, 8 de março de 2023

Nós, mulheres negras do Brasil, integrantes de 75 organizações, coletivos e entidades do movimento de mulheres negras que compõem a Articulação de Organizações de Mulheres Negras Brasileiras (AMNB) e a Rede de Mulheres Negras do Nordeste, inspiradas em nossa ancestralidade, estamos realizando a 5ª edição do Março de Lutas para reverberar que somos portadoras de um legado que afirma um novo pacto civilizatório e exige reparação histórica.

Irmanadas com as mulheres do mundo afetadas pelo racismo, sexismo, lesbitransfobia e outras formas de discriminação, estamos constantemente em marcha pelas nossas vidas, por nossos pares e por todas as pessoas afetadas por toda lógica colonialista racista patriarcal do sistema mundo, inventada pela Europa e perpetuada por seus descendentes em África e nas Américas.

Em um feito histórico, em novembro de 2015, a Marcha das Mulheres Negras contra o Racismo a Violência e pelo Bem Viver ocupou Brasília denunciando e reafirmando que estamos conscientes das violências que o Estado brasilerio historicamente tem engendrado contra o povo negro. Cenário devastador que, em uma dinâmica de modernização, tem a cada década praticado novas formas de violação dos nossos direitos e atentando contra as nossas vidas. Nesse sentido, reafirmamos, oito anos depois, nossas estratégias contínuas de reação a este projeto sistemático de genocídio iniciado no tráfico negreiro e atualizado ao longo da história.

O modelo de gestão do Estado brasileiro e o sistema capitalista estruturado nesta nação nos deve a alma! E a fim de buscarmos a justiça racial, seguimos marchando, carregando a sabedoria milenar que herdamos de nossas ancestrais que se traduz na concepção do Bem Viver, que funda e constitui as novas concepções de gestão do coletivo e do individual; da natureza, da política e da cultura, que estabelecem sentido e valor à nossa existência, calcados na utopia de viver e construir o mundo de todas(os) e para todas(os)… como apontou a Carta da Marcha das Mulheres Negras – 2015, entregue em audiência à então presidenta Dilma Rousseff.

Estamos aqui mais uma vez para convocar, provocar, incitar todas, todos e todes a se levantarem contra a “Falsa Democracia” que tem nos aprisionado, subalternizado e reforçado a necropolítica do Estado branco patriarcal e cisheteronormativo. Propomos a construção do Bem Viver tendo a reparação histórica como papel e obrigação do Estado e da elite econômica brasileira herdeira de todo legado das mazelas da escravidão. Exigimos políticas de ação afirmativas em todas as áreas de instituições públicas e privadas; garantia da vida em segurança física, simbólica, alimentar e nutricional; emprego e renda; terra e moradia; compromisso com a construção de uma sociedade onde os direitos humanos e fundamentais das mulheres negras sejam efetivos.

A trajetória das Mulheres Negras Brasileiras tem sido atravessada por diversas lutas e enfrentamentos cotidianos. Construímos as variadas estratégias e fortalecemos as trincheiras das batalhas para construção desta nação. Expulsamos os lusitanos  colonizadores na batalha pela Independência, investimento nossa capacidade física e intelectual para a construção do Brasil pós Portugal, na contemporaneidade, fomos as principais responsáveis em expulsar do governo federal o inominável representante da ignorância, do atraso, do racismo, fascismo e fundamentalismo, que conspirou para nossa destruição.

No final de 2022, imbuídas de nossa força ancestral, nossa liberdade de pensamento e ação crítica, entregamos ao Presidente Lula uma Carta. O documento foi inspirado e construído no calor de debates políticos importantes: 23ª Assembleia anual da AMNB, ocorrida no mês de novembro de 2022; Debate geopolítico fruto do Encontro Internacional de 30 Anos da Red de Mujeres Afrolatinoamericanas, Afrocaribeñas y de la Diáspora, no mesmo mês; e o processo de transição governamental mais emblemático do país desde a redemocratização. Reafirmando nossa disponibilidade na construção de diálogos permanentes com o atual governo e o Estado sobre a agenda política de reparação histórica na trilha do Bem Viver.

Rompemos com o silenciamento, a naturalização criminosa da sociedade em relação às injustiças raciais e conclamamos nesta 5ª Edição do Março de Lutas a construção da Marcha das Mulheres Negras +10 para novembro 2025, em Brasília – DF, impulsionando a continuidade do debate sobre reparação histórica e dívida secular para conosco, povo negro, responsáveis pela edificação da nação brasileira.

Na esteira desse debate, apresentamos nossa agenda nacional da 5ª Edição do Março de Lutas 2023, uma construção coletiva feita por múltiplas e diversas organizações de mulheres negras brasileiras presentes  nas cinco regiões do país, grafando nossos passos rumo à Marcha de Mulheres Negras +10, 2025. Vamos impulsionar a construção de Comitês da Marcha nos territórios, estados e cidades da federação, rumo a Brasília em um só grito: Queremos a parte que nos cabe no bolo da Nação. Reparação Já!

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