O Maranhão deve justiça a Samara Regina, trabalhadora doméstica jovem negra gestante, torturada por Carolina Ferreira e por agente da Polícia Militar do estado
Carolina Sthela Ferreira dos Anjos, a empresária cujo nome tomou conta das redes sociais na última semana pelas acusações de torturar e agredir uma trabalhadora doméstica grávida no Maranhão, está no Complexo Penitenciário de Pedrinhas, em São Luís. Presa desde a última quinta-feira (7), ela teve a prisão mantida após audiência de custódia na 2ª Central das Garantias da Comarca da Ilha de São Luís (MA).
O Tribunal de Justiça do Maranhão (TJ-MA) informou que o processo tramita em segredo de Justiça, mas os elementos já conhecidos do caso expõem muito mais do que a violência brutal sofrida por uma jovem negra, grávida e trabalhadora doméstica. Escancaram a lógica histórica racista patriarcal que atravessa o trabalho doméstico no Brasil desde o período escravocrata. Não por acaso, a acusação que desencadeou as agressões foi a suspeita de furto de um anel, um roteiro conhecido por milhares de trabalhadoras domésticas no país, frequentemente vistas sob suspeita dentro das casas onde trabalham, mesmo quando são elas as vítimas de violência, humilhação e exploração.
O caso tem contornos que chamam ainda mais a atenção diante do histórico da empresária Carolina Sthela Ferreira dos Anjos. Segundo a Polícia Civil do Maranhão, ela já respondeu a mais de 10 processos judiciais. Em 2024, foi condenada por calúnia após acusar falsamente uma ex-babá de roubar uma pulseira de ouro. Antes disso, em 2023, ela e o marido foram condenados por furto qualificado contra a própria irmã, após o desvio de mais de R$ 20 mil de uma escola de natação em São Luís. A contradição evidencia como o privilégio branco opera também na construção social da figura da “suspeita”: enquanto mulheres negras e pobres são historicamente criminalizadas e vigiadas, pessoas brancas atravessam instituições com presunções de credibilidade e proteção, mesmo diante de antecedentes criminais.
Os áudios atribuídos à empresária revelam ainda outra dimensão da violência: a naturalização da tortura como mecanismo de punição sobre corpos negros. A frase “não era para ter saído viva”, dita após relatar as agressões, somada à presença de um policial militar conhecido de Carolina e apontado pela vítima como participante das sessões de violência, remete diretamente às estruturas herdadas da escravidão brasileira. “Parou uma viatura no meio da rua, eles vieram aqui de manhã. Mas veio um policial que me conhecia. Sorte minha, né?”, afirma no áudio. A Casa Grande muda de forma, mas preserva hierarquias: a patroa branca aciona o braço armado do Estado para castigar uma trabalhadora negra acusada de desobedecer ou transgredir.
Segundo a vítima, que aceitou o trabalho para juntar dinheiro para o enxoval do seu bebê, ela trabalhava cerca de 10 horas por dia, acumulando funções, e recebeu R$ 750 por pouco mais de duas semanas de serviço. A precarização do trabalho doméstico, frequentemente romantizada como relação “de confiança” ou “quase da família”, continua sendo um dos espaços mais vulneráveis à violação de direitos no país. Dados divulgados pelo Ministério do Trabalho e Emprego mostram que o Brasil resgatou 2.772 trabalhadores em condições análogas à escravidão em 2025. Desse total, 34 pessoas foram resgatadas apenas no trabalho doméstico. Entre 2017 e 2023, foram ao menos 119 resgates nesse setor. Segundo auditoras fiscais do trabalho, as vítimas são majoritariamente mulheres negras que têm infância, juventude e direitos básicos atravessados pela exploração dentro de ambientes familiares privados, onde a violência costuma permanecer invisibilizada.
O caso no Maranhão rompe parcialmente esse silêncio porque veio à tona através dos áudios, dos hematomas e da repercussão pública. Mas ele também evidencia como o trabalho doméstico segue sendo um dos territórios mais evidentes da permanência da cultura escravocrata brasileira, especialmente quando raça, gênero e classe se cruzam para determinar quem pode acusar, quem merece proteção institucional e quem continua sendo tratado como corpo descartável.
Diante de mais um caso que repete esse padrão, a Articulação de Organizações de Mulheres Negras Brasileiras (AMNB) reforça a necessidade de responsabilização rigorosa de todos os envolvidos, incluindo agentes do Estado coniventes com a violência, e destaca que enfrentar o racismo, o sexismo e a exploração do trabalho doméstico é parte fundamental da construção de uma sociedade comprometida com a dignidade, os direitos humanos e a vida das mulheres negras.




