Nota de apoio aos povos originários

A Articulação de Mulheres Negras Brasileiras (AMNB) vem, por meio desta nota pública, repudiar veementemente e pedir a condenação dos atos de agressão contra os povos originários após o segundo turno das eleições presidenciais deste ano. As denúncias são inquestionáveis e apontam para uma escalada de violência que recobre todo o território nacional.

Em Mato Grosso do Sul, povos Guarani Kaiowá e Terena sofreram intimidações, ameaças de morte, atropelamentos, tentativas de bloqueios à circulação e até tentativa de homicídio por meio de envenenamento da água consumida pela Aldeia Sassoró (em Tacuru). A autoria deste crime hediondo é atribuída a dois servidores que já foram afastados. O caso está sendo apurado pelo Ministério Público Federal (MPF). Estão sendo investigados, ainda,  pelo menos cinco casos de assassinatos de indígenas na região. No Pará, no território de São Félix do Xingu, lideranças relataram ameaças de invasão por pecuaristas em áreas indígenas, como a Terra Indígena Apyterewa, e no Rio Grande do Sul, os povos Kaingang e Guarani foram alvo de perseguições e demissões após participação em carreata política. No estado gaúcho, alguns conflitos resultaram em mortes.

Estamos cientes das ações do governo federal por meio de uma força-tarefa que envolve o Ministério dos Povos Indígenas, o Ministério da Justiça e Segurança Pública, o Ministério dos Direitos Humanos e da Cidadania e o Ministério da Igualdade Racial. Mas é preciso um posicionamento resoluto da sociedade brasileira, é preciso que haja uma maiúscula indignação contra esta bárbarie que historicamente abate corpos indígenas e negros. Desde a invasão deste país em 1500, os povos originários vêm sofrendo  as piores violências, que chegou a patamares de genocídio e etnocídio.

Em pleno século XXI assistimos a essa tecnologia de intimidação, de exclusão e de morte ser acionada visando a intimidação, o silêncio, o rebaixamento de grupos e pessoas que exerceram o direito cidadão do voto. É urgente, nesta atmosfera pós-eleições, conter o avanço da lógica jagunça e miliciana, que tenta incendiar o país com mentiras, desinformação, abuso de poder, praticando todo tipo de violência, chegando ao cúmulo da prática de homicídios.

É tarefa coletiva a indignação em relação à tamanha barbárie, é tarefa de todas, todos e todes cerrar fileiras para que criminosos não sejam anistiados dos crimes cometidos nestes últimos dias, é papel de cada uma de nós fincar a bandeira de proteção aos povos originários e aos grupos vulneráveis que estão sendo alvo de toda sorte de assédio e violência pós-eleitoral.

Nós mulheres negras deste país, do Oiapoque ao Chuí, nos solidarizamos com os povos originários e exigimos que a força-tarefa do governo federal permaneça como um polo importante  para investigar os crimes, mapear as ameaças, condenar os culpados e proteger as comunidades até que elas se estejam absolutamente seguras.

O Brasil que ganhou as eleições é um Brasil de todos, mas não podemos esquecer que quem nos salvou de forças reacionárias e retrógradas, que insistem em implantar o medo e o terror, foi o Brasil-Pindorama (o país dos indígenas), o Brasil-Palmarino (o país da população negra). Em nome dessa grande coletividade, reafirmamos mais uma vez que o Brasil venceu para o Brazil e não vamos permitir que a violência, a regressão, a intimidação ceifem as vidas dos donos desta terra. Por eles, por nós, pelo país, reajamos!

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