“Eu acredito que ainda tem muito estereótipo do que é ser mulher rural”, a afirmação é de Nzinga Cavalcante, assentada hoje pela reforma agrária no município de Tracunhaém (PE), onde também está localizada a Associação Sítio Ágatha, de onde é tesoureira, e também filha da sua idealizadora, Luíza Cavalcante. Para ela, a mulher rural ainda é vista como aquela que fica dentro de casa, dedicada exclusivamente ao marido, aos filhos, ao cuidado com a casa, mantendo no máximo uma horta ou um galinheiro. “É como se para mulher rural tivesse só essa capa. Mas quando a gente chega no território, é totalmente diferente. Igual, mas diferente. A gente tem o nosso galinheiro, a gente faz a comida, mas a gente vai para a lida e vai para o pesado, pega a enxada e faz a articulação política. Ser mulher rural é gestar todo um ecossistema.”
Desde 1995, o dia 15 de outubro marca o Dia Internacional da Mulher Rural, implementado pela Assembleia Geral das Nações Unidas, visando destacar o papel e a situação das mulheres que vivem ou exercem atividades no meio rural.
Mas os estereótipos incomodam Nzinga, que relata já ter sido impedida até mesmo de dar entrevista para uma emissora de TV, porque foi encontrada pela equipe de reportagem de “short e camisa”. “As camponesas usam calça jeans, galocha, camisa de manga, chapeuzinho de palha. E eles não quiseram me entrevistar, porque disseram que aquilo não era roupa de agricultor. Eu falei que trabalho assim. Eu adoro trabalhar de biquíni, por que não? Por que tem que ter um padrão? Se eu respeito a terra, a terra me respeita.”

Respeito esse que, para a assentada, é um marco característico das mulheres, que, na sua experiência, são as que sabem como tratar a terra. Ela critica a lógica científica de tentar encaixar tudo em estruturas rígidas e defende uma compreensão circular e orgânica da natureza. “Esse movimento circular, as mulheres fazem. Quando eu estou perdida, meus orixás me giram, e me levam para casa. O vento vai fazendo essa circularidade na terra também, de reconectar, porque eles [colonizadores] apagaram, né? Todas as nossas vivências. A gente está reaprendendo nesse mundo”, completa a bacharela em Agroecologia pela Universidade Federal Rural de Pernambuco (UFRPE).
A leitura de Nzinga conversa muito com o pensamento de Arilene Martins. “Continuam sendo as mulheres que mantêm as sementes e o cuidado da terra, mas são invisibilizadas”, avalia a educadora popular, que vem da Comunidade Quilombola do Cedro, em Mineiros (GO). Ela integra o Instituto Pretas e faz parte da CoopCircuLar, uma cooperativa de tijolos ecológicos. Há alguns anos, se dedica aos movimentos de economia solidária, e das mulheres da agricultura familiar. “Quando a gente fala de roça, de alimento, a sociedade ainda remete muito ao homem. Mas não faz essa leitura de quem tá ainda lá na base, mantendo os quintais ecológicos, a produção ecológica, são as mulheres.”

Nesse cenário, Arilene menciona desafios como os embates que essas agricultoras travam com seus próprios companheiros nos territórios, que em muitos casos acreditam que, “se não põe veneno, não vai pra frente”. De modo que são as mulheres que garantem a manutenção da agricultura familiar sem esses agrotóxicos. “Mesmo com muitos desafios, a gente ainda continua fazendo um plantio saudável e diversificado.”
Os diversos desafios
No Brasil, as mulheres rurais representam uma parcela significativa da população, cuja presença ultrapassa o trabalho familiar e a produção agrícola. Cerca de 19% dos estabelecimentos agropecuários brasileiros são dirigidos diretamente por mulheres, o equivalente a aproximadamente 947 mil propriedades, segundo dados do Censo Agropecuário do IBGE. No entanto, controlam apenas 8,5% da área, conforme o estudo “Mulheres nas Cadeias de Valor do Agronegócio Brasileiro”, de 2026.
Mas, apesar da importância de sua atuação na produção de alimentos e na manutenção dos territórios rurais, as mulheres ainda enfrentam barreiras para acessar recursos que garantam condições de trabalho e autonomia econômica. A dificuldade de obter crédito rural, somada à falta de acesso à informação, à formação e às políticas públicas, limita as possibilidades de investimento e fortalecimento da agricultura familiar. Para Nzinga Cavalcante, essas desigualdades são atravessadas pelo racismo e pelo patriarcado, que aprofundam a exclusão das mulheres negras do campo.

“Eu chamo de racismo financeiro. Porque o crédito não chega para todo mundo, as políticas públicas também não, Programa Cisternas não chega, Crédito Rural não chega. Aqui no território, por exemplo, tem uma senhora de seus oitenta e poucos anos, que sempre criou seus filhos, netos, bisnetos, e ela vive em extrema pobreza. Mas a terra dela é rodeada de cana-de-açúcar”, desabafa.
A mãe de Nzinga, Luíza Cavalcante, por sua vez, pondera que o país dispõe de importantes políticas públicas voltadas à agricultura familiar, mas ressalta que a existência desses programas não garante que os recursos cheguem a todas as trabalhadoras rurais. A matriarca argumenta que é o Movimento Sem Terra (MST) e as cozinhas solidárias que têm alimentado a sociedade.
“A ATER — Assistência Técnica e Extensão Rural, o Programa Nacional de Fortalecimento da Agricultura Familiar (Pronaf), entre outros, são programas muito bons. Mas o acesso à informação não chega para todas”, explica a agricultora afro-ecológica.
Como se isso não fosse o bastante, Luiza Cavalcante demonstra outra preocupação: o avanço do conservadorismo a partir do fundamentalismo religioso nos territórios como um fator de enfraquecimento da autonomia dessas mulheres.

“O fundamentalismo religioso vem e diz ‘cale a boca e aceite o poder do varão’, e aí essas mulheres passam a não se comunicar com as demais e a abafar a sua força. E a gente não pode viver assim”, lamenta Luiza, ao recordar de todo o enfrentamento feito pelas mulheres historicamente para ter seu protagonismo reconhecido na luta pela reforma agrária. “Quem está dentro do campo, nos enfrentamentos, são as mulheres, que se organizam e enfrentam a polícia, a capangagem, o grande latifúndio. E organizam a produção, a cultura, a educação. As mulheres precisam ser donas de sua autonomia.”
A avaliação chama atenção porque, algumas décadas atrás, setores progressistas da Igreja Católica, por exemplo, tiveram papel importante na organização política dos trabalhadores rurais e na luta pela reforma agrária no Brasil. Sob a influência da Teologia da Libertação, as Comunidades Eclesiais de Base (CEBs) e a Comissão Pastoral da Terra (CPT), criada em 1975, contribuíram para a formação de comunidades camponesas, a denúncia da violência no campo e a articulação de movimentos sociais. Essa relação, no entanto, nunca foi isenta de contradições, diante das disputas internas da Igreja e das estruturas patriarcais que também atravessavam os territórios. Hoje, enquanto o fundamentalismo religioso ganha espaço no debate público brasileiro, Luíza identifica seus efeitos também no campo, onde o avanço de vertentes como a evangélica neopentecostal, passa a disputar os sentidos da fé e o lugar das mulheres nas comunidades.
Enfrentamento aos latifúndios
Já em Goiás, as preocupações de Arilene se voltam para os grandes ruralistas, que muitas vezes mantêm seus latifúndios lado a lado com terras onde se luta para manter a agricultura familiar. “Do lado tem uma lavoura de soja, de eucalipto, ou a mineração, degradando o meio ambiente. É um desafio grande para a gente bater de frente. E as ameaças são sofridas no dia a dia. Para resistir num território desse, tem que ter muita persistência.”
A ativista lembra ainda que no caso das comunidades quilombolas a urgência da titulação também fala alto. “Nós, mulheres negras, raramente damos conta de comprar uma terra. Então a gente tem que contar com a garantia da distribuição igualitária da terra. E a luta vem sendo paulatinamente, todos os dias, para garantir para que a gente possa ter essa terra e dar o destino real a ela: o plantio e a soberania alimentar.”
A Lei de Terras de 1850 é inclusive uma das peças centrais para entender por que a população negra foi historicamente excluída do acesso à terra. A legislação impediu que os escravizados e a população negra recém-liberta tivessem acesso à propriedade ao determinar que as terras públicas só podiam ser adquiridas por meio de compra em dinheiro. Um modelo como esse em uma sociedade escravista e profundamente desigual contribuiu para perpetuar a concentração fundiária e ajuda a explicar a dimensão racial da luta pela reforma agrária no Brasil.
Mas, mesmo com tantos fatores jogando contra, elas não abaixam a cabeça e seguem apresentando diversas formas de alcançar mais espaço para as mulheres negras rurais, e apresentando alternativas ao modelo predatório do agronegócio de produzir alimentos e se relacionar com a terra.
Para Tamires Black, cientista social e integrante da Associação Sítio Ágatha, a luta pela reforma agrária está diretamente ligada à garantia de direitos básicos, que vão da moradia à alimentação e ao trabalho. “A luta pela reforma agrária, pela terra, é o direito mais básico que a gente tem reivindicado desde toda a colonização”, afirma.

É nesse contexto que a afroecologia se apresenta como uma forma de resistência ao modelo de desenvolvimento que privilegia a exploração dos territórios. Tamires a define como “o resgate da ancestralidade, da espiritualidade, das tecnologias ancestrais, comunitárias, tradicionais, que têm sido apagadas pelo capitalismo”.
Para Luíza Cavalcante, essa perspectiva amplia a compreensão sobre o trabalho das mulheres rurais para além do cultivo de alimentos, incorporando suas memórias, culturas, espiritualidades e formas de produzir conhecimento. “Um dos diferenciais da afroecologia é justamente entender que para além do processo de trabalhar com a natureza, é sobre conviver com as naturezas”, destaca.
A dimensão coletiva dessa relação com o território também aparece na experiência de Arilene Martins. Ao diferenciar a organização dos quilombos daquela frequentemente associada à agricultura familiar, ela destaca que a preservação ambiental, a cultura alimentar e a produção estão conectadas à vida comunitária. “Quando você fala do quilombo, você pensa num território, numa totalidade”, afirma. Essa perspectiva, segundo a educadora, envolve não apenas a preocupação com o uso de agrotóxicos, mas também a proteção das águas, do meio ambiente e dos modos de vida tradicionais. Em territórios pressionados pelo agronegócio, a coletividade se torna parte fundamental da resistência e da defesa de condições dignas de permanência no campo.
Para Arilene, essa luta se relaciona diretamente ao Bem Viver, que depende da garantia de direitos e da autonomia das comunidades sobre seus territórios e sua alimentação. A quilombola chama atenção para a necessidade de assegurar não apenas o acesso à terra, mas também a possibilidade de decidir o que plantar, produzir, colher e consumir, em oposição a um modelo que degrada a biodiversidade e ameaça a soberania alimentar.
“O agro não é pop, não é quilombola, porque degrada, mata a biodiversidade, altera o clima. E eu ouso dizer que o clima não está em crise. Quem está em crise é a humanidade. Quando a gente diz território, a gente está dizendo do nosso corpo, dos nossos modos de vida, da nossa sobrevivência. Então, a reparação que a gente busca não é individual, é coletiva”, finaliza.




