Saúde das mulheres negras ainda é marcada por desigualdades no acesso e no cuidado   

No Dia Nacional de Mobilização Pró-Saúde da População Negra, dados evidenciam como o racismo e as falhas na implementação de políticas públicas dificultam o acesso das mulheres negras à saúde integral

Neste Dia Nacional de Mobilização Pró-Saúde da População Negra (27), pesquisas recentes evidenciam as desigualdades que ainda atravessam o acesso e o cuidado à saúde no Brasil. Mulheres negras apresentam taxas mais elevadas de mortalidade materna, enfrentam maior dificuldade de acesso à assistência no tratamento do câncer e estão mais expostas a doenças crônicas e infecciosas. Especialistas apontam que, além das condições sociais, o racismo e a falta de implementação das políticas públicas de equidade racial seguem entre os obstáculos para garantir o direito à saúde.

Os dados mais recentes também evidenciam uma dificuldade anterior ao atendimento. Um estudo publicado em 2026 na revista Saúde e Sociedade analisou a implementação da Política Nacional de Saúde Integral da População Negra (PNSIPN) nos estados e municípios brasileiros. Dos 5.570 municípios analisados, apenas 32% haviam incluído ações previstas na política em seus planos municipais de saúde. Em somente 7% havia uma instância específica para conduzir, coordenar e monitorar ações voltadas à saúde da população negra.

Outro levantamento nacional conduzido pela Fiocruz mostrou que 34,6% dos gestores municipais que participaram da pesquisa sequer conheciam as diretrizes da PNSIPN. O cenário revela uma distância entre a existência da política e sua efetiva aplicação nos serviços de saúde.

Para Nathália Ribeiro, líder do projeto Saúde das Mulheres Negras, iniciativa da ONG Criola que reúne lideranças e organizações no Rio de Janeiro, chegar a uma unidade de saúde não significa necessariamente conseguir o cuidado necessário.

Nathália Ribeiro é líder do projeto Saúde das Mulheres Negras, iniciativa da ONG Criola / Imagem: Arquivo Pessoal

“Acho que o primeiro grande desafio é conseguir acessar um serviço de saúde que realmente escute e responda às necessidades dessas mulheres, que enfrentam uma série de dificuldades no dia a dia. É a falta do transporte, a dificuldade de conseguir uma consulta ou um exame, a necessidade de escolher entre trabalhar e cuidar da própria saúde, e o horário dos serviços não são compatíveis com a realidade dessas mulheres”, afirma.

Mortalidade materna e câncer evidenciam desigualdades

Na saúde materna, o racismo é evidente. Boletim do Instituto de Estudos para Políticas de Saúde (IEPS), publicado em 2025, analisou a mortalidade materna entre 2012 e 2023 e mostrou que a taxa entre mulheres pretas foi duas vezes maior que entre mulheres brancas. No período de 2010 a 2023, a razão de mortalidade materna foi de 108,6 óbitos por 100 mil nascidos vivos entre mães pretas e 56,6 entre pardas, contra 46,9 entre mães brancas. O estudo também apontou menor cobertura de pré-natal entre mulheres negras.

As discrepâncias também aparecem no tratamento do câncer. A pesquisa “Desigualdade racial no acesso à assistência oncológica no Brasil: uma análise interseccional com dados do SIM-SUS” publicada este ano analisou mais de 2,7 milhões de pessoas que morreram de câncer entre 2011 e 2023. Entre as pessoas brancas, 67,3% haviam recebido assistência médica durante o câncer que levou à morte. Entre as pessoas negras, o percentual foi de 61,5%. Segundo os autores, 83,8% dessa diferença não foi explicada pelas características socioeconômicas e demográficas consideradas na análise.

Saúde mental também é uma questão de cuidado

Quando o assunto é saúde mental, a sobrecarga vivida pelas mulheres negras ganha ainda mais peso. Um estudo publicado na Revista Trabalho, Educação e Saúde (TES) realizado no Ceará entre 2023 e 2024, com 31 profissionais de saúde, analisou o cuidado oferecido a mulheres negras nos serviços públicos de saúde mental. A pesquisa apontou a necessidade de considerar as relações raciais e de fortalecer a educação permanente dos profissionais para enfrentar o racismo.

Para a coordenadora geral da Articulação Nacional de Psicólogas(os) Negras(os/es) e Pesquisadoras(es) (ANPSINEP), Maria Conceição, falar sobre saúde mental das mulheres negras exige considerar as condições materiais de vida e a sobrecarga de responsabilidades.

Maria Conceição é a coordenadora geral da Articulação Nacional de Psicólogas(os) Negras(os/es) e Pesquisadoras(es) (ANPSINEP) / Imagem: Arquivo Pessoal

“O racismo impacta de modo violento na vida das pessoas negras, com ênfase nas mulheres negras. O desafio é construir uma política de cuidado para essas mulheres, aliviando a sobrecarga que carregam, com creches, escolas adequadas, saúde de qualidade, além de espaços onde possam ter lazer e prazer, promovendo maior participação delas nos espaços decisórios. É preciso, portanto, que as políticas públicas considerem as desigualdades raciais e de gênero, promovam a equidade considerando a interseccionalidade”, explica a coordenadora.

Dados do DIEESE ajudam a dimensionar essa sobrecarga. Em 2025, cerca de 24 milhões de domicílios brasileiros, ou 30% do total, eram chefiados por mulheres negras. O levantamento também mostrou que uma em cada seis mulheres negras ocupadas trabalhava em serviços domésticos ou na limpeza de edifícios.

Para a também coordenadora geral da ANPSINEP, Veridiana Machado, as condições do atendimento na saúde também dificultam a possibilidade de buscar ajuda por parte dessas mulheres.

“Muitas mulheres negras chegam aos serviços de saúde trazendo experiências de discriminação racial, violência doméstica, perdas familiares e sobrecarga cotidiana, mas nem sempre encontram profissionais preparados para reconhecer essas questões. Não basta existir um serviço ou garantir formalmente o direito ao atendimento. É necessário que as mulheres tenham condições concretas de chegar aos serviços, serem acolhidas e permanecerem em acompanhamento”, avalia.

Veridiana Machado é coordenadora geral da ANPSINEP / Imagem: Arquivo Pessoal

Cuidar da alimentação é cuidar da Saúde!

O enfrentamento ao racismo na saúde permeia múltiplos campos e a nutrição também é um deles. Em 2024, o Observatório Brasileiro das Desigualdades apontou que as mulheres negras ocupam os maiores índices de insegurança alimentar moderada e grave do país, chegando a alcançar 37% das famílias chefiadas por esse grupo. De acordo com o estudo do Pacto Contra a Fome, em 2023, a possibilidade de uma casa chefiada por uma pessoa negra estar em algum nível de insegurança alimentar era 29% maior do que a de uma pessoa branca. Essa disparidade chegou a ser de 45% em 2004.

Para Anna Cláudia Oliveira Santos, nutricionista e integrante da Rede de Mulheres Negras para Soberania e Segurança Alimentar e Nutricional (REDESSAN), falar sobre soberania alimentar sem os marcadores de raça e gênero é “ignorar as estruturas de opressão que colocam as mulheres negras sempre na base da pirâmide social”. E para dar conta dessa intersecção, as mulheres negras do Brasil construíram redes  com o objetivo de ampliar e politizar esse debate, “entendendo que a garantia de comida no prato passa necessariamente pelo enfrentamento do racismo estrutural ao machismo”, afirma. 

Anna Cláudia Oliveira Santos é nutricionista e integrante da REDESSAN / Imagem: Arquivo Pessoal

A REDESSAN é parte desse movimento que reconhece os impactos do racismo no prato das famílias brasileiras. A rede é um espaço de articulação com uma incidência política voltada para defesa do direito humano à alimentação adequada e saudável. 

O cenário também envolve doenças crônicas. A Diretriz Brasileira de Hipertensão Arterial de 2025 aponta que a incidência da doença foi maior entre pessoas negras mesmo após a consideração de diferentes fatores socioeconômicos e comportamentais. Entre mulheres, a incidência foi 1,85 vez maior entre as negras, em comparação com mulheres brancas. O documento também aponta a discriminação racial, o estresse, a depressão e a ansiedade entre fatores psicossociais que podem potencializar o desenvolvimento da hipertensão e suas complicações.

O Boletim Dia da Consciência Negra, produzido pelo Estudo Longitudinal De Saúde Do Adulto (ELSA) em 2023, apresentou que os grupos mais afetados pela diabetes eram as  pretas e pardas, sendo respectivamente 27,4% e 19, 9%, contra  16,6% de pessoas brancas. Esse mesmo padrão se repete em doenças como a obesidade, 29,4% e 22,7% contra 19,7%.

Esses resultados são frutos de uma série de problemas enfrentados cotidianamente pela população negra, em especial, as mulheres negras. Para a nutricionista, o estresse crônico promovido pelo racismo, somados com a restrição alimentar e ao consumo forçado de alimentos de baixa qualidade, vai elevar esses índices de doenças crônicas não transmissíveis. 

“As manifestações para esse problema estão no cotidiano. A gente pode observar pela divisão sexual e racial no trabalho onde as mulheres negras ficam sobrecarregadas pela jornada dupla e com as menores remunerações. Isso vai limitar o acesso a alimentos de qualidade e, até mesmo, o tempo de preparo das refeições caseiras para obtenção de uma alimentação, de fato, saudável”,  reflete.

Racismo ultrapassa a porta das unidades

Na avaliação de Nathália, o racismo nem sempre aparece em situações explícitas de discriminação. Ele pode estar na própria organização dos serviços, na forma como profissionais escutam as pacientes e na definição de quais demandas são consideradas prioritárias. “Ele aparece quando uma mulher negra tem sua dor desvalorizada, quando não recebe uma explicação adequada sobre seu tratamento ou quando suas condições de vida não são consideradas pelos profissionais de saúde.”

A situação pode ser ainda mais complexa para mulheres negras lésbicas, trans, quilombolas e praticantes de religiões de matriz africana, segundo a liderança da Criola. Para ela, uma unidade de saúde não pode ser considerada acessível apenas por estar de portas abertas.

“Ela precisa ser um lugar onde essas mulheres se sintam seguras, respeitadas e tenham confiança para falar sobre sua saúde”, ressalta.

A experiência de agentes comunitárias de saúde negras no Rio de Janeiro capital e em São Gonçalo (RJ), analisada em estudo publicado pela Fiocruz em 2025, também identificou manifestações de racismo nas relações entre usuários, trabalhadores e gestão do SUS. O estudo relacionou essas experiências à própria organização dos serviços e às condições históricas dos territórios onde essas profissionais vivem e trabalham.

Participação das mulheres nas decisões

Na Região Metropolitana do Rio de Janeiro, a Criola desenvolve o projeto Saúde das Mulheres Negras em nove municípios: Rio de Janeiro, Duque de Caxias, Nova Iguaçu, Belford Roxo, São João de Meriti, Magé, Queimados, Japeri e Mesquita.

A iniciativa reúne lideranças e organizações dos territórios e busca aproximar essas mulheres dos serviços e dos espaços de decisão. Desde 2025, segundo a organização, 42 lideranças estiveram ativas no projeto, que registrou mais de 26 mil participações em atividades, além de mais de 400 reuniões com autoridades, 550 ações junto a unidades básicas de saúde e 104 participações em espaços de controle social.

“Essas mulheres conhecem muito bem os problemas dos seus territórios, mas raramente são chamadas para participar das decisões sobre os serviços de saúde que utilizam. Isso também precisa mudar”, completa Nathália.

Para Maria Conceição e Veridiana Machado, a participação das mulheres negras também deve estar presente na formulação das políticas de saúde mental. A ANPSINEP atua na formação de profissionais, na produção de conhecimento e na incidência política, além de promover iniciativas voltadas ao enfrentamento do racismo na Psicologia e nos serviços de saúde.

Neste 27 de outubro, Dia Nacional de Mobilização Pró-Saúde da População Negra, o desafio colocado pelas pesquisas e pelas organizações é fazer com que o direito à saúde ultrapasse o campo formal e se transforme em cuidado efetivo.

“A prioridade é fazer com que as políticas que já existem sejam aplicadas”, assevera Nathália. Para ela, isso exige orçamento, profissionais preparados para reconhecer e enfrentar o racismo e uma gestão capaz de acompanhar as desigualdades raciais no atendimento.

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