*Por Redação
Nesta quarta-feira, 1º de julho, começa oficialmente a 14ª edição do Julho das Pretas, a maior agenda de incidência política construída por mulheres negras no Brasil e na América Latina. Neste ano, a programação reúne675 atividades, organizadas por292 organizações e coletivos, distribuídas por 23 estados brasileiros mais o Distrito Federal e também 3 países, fortalecendo uma articulação internacional em torno da luta por Reparação e Bem Viver.
Com o tema “Seguimos em Marcha por Reparação e Bem Viver”, esta é a primeira edição do Julho das Pretas após a Marcha Global das Mulheres Negras por Reparação e Bem Viver, que reuniu mais de 300 mil mulheres de 40 países, em Brasília, em novembro de 2025. O tema reafirma que a mobilização iniciada na Marcha segue viva nos territórios, fortalecendo uma agenda permanente de enfrentamento ao racismo patriarcal e de construção de novos projetos de sociedade.
Criado em 2013 pelo Odara – Instituto da Mulher Negra, em referência ao 25 de Julho, Dia Internacional da Mulher Negra Afro-Latino-Americana, Afro-Caribenha e da Diáspora, o Julho das Pretas consolidou-se como uma plataforma internacional de articulação política, formação, produção de conhecimento, denúncia das desigualdades e celebração das resistências das mulheres negras.
Ao longo do mês, organizações, coletivos, escolas, universidades, grupos comunitários, pesquisadoras, artistas, ativistas e movimentos sociais promovem atividades em diferentes territórios. Rodas de conversa, seminários, festivais, marchas, encontros comunitários, atividades em escolas, oficinas, exposições, lançamentos de pesquisas e formações políticas compõem uma agenda diversa que fortalece a incidência das mulheres negras no Brasil e no mundo.
A iniciativa é organizada pela Articulação de Organizações de Mulheres Negras Brasileiras (AMNB), pela Rede de Mulheres Negras do Nordeste e pela Rede Fulanas – Negras da Amazônia Brasileira, reunindo centenas de organizações comprometidas com a luta contra o racismo patriarcal e pela construção de uma sociedade baseada na justiça racial, na igualdade de gênero e no Bem Viver.

SEGUIMOS EM MARCHA POR REPARAÇÃO E BEM VIVER
A edição de 2026 marca um novo momento do movimento de mulheres negras. Após a realização da Marcha Global, o Julho das Pretas passa a assumir ainda mais o papel de continuidade desse processo político, fazendo com que a Marcha permaneça viva ao longo de todo o mês de julho.
Para Naiara Leite, coordenadora executiva do Odara – Instituto da Mulher Negra e integrante da coordenação da Rede de Mulheres Negras do Nordeste, Reparação e Bem Viver representam um projeto político construído pelas mulheres negras para transformar a sociedade: “Reparação e Bem Viver expressam um projeto político tecido a partir das experiências, memórias, resistências e saberes das mulheres negras, que há séculos enfrentam os efeitos do racismo, do patriarcado, do colonialismo, da exploração econômica e da negação de direitos.”
Pensar Reparação significa reconhecer as responsabilidades históricas do Estado e da sociedade na produção das desigualdades raciais, enquanto o Bem Viver aponta para um modelo de sociedade fundamentado no cuidado, na justiça social, na ancestralidade, na coletividade e na preservação da vida.
UMA AGENDA QUE CONECTA O MUNDO
Este ano, o Julho das Pretas amplia ainda mais sua dimensão internacional. Organizações e coletivos de diversos países inscreveram atividades na programação, fortalecendo intercâmbios, experiências e estratégias comuns de enfrentamento ao racismo patriarcal.
Para Janira Sodré, representante da coordenação da AMNB, essa presença internacional demonstra que o racismo e o colonialismo produzem impactos globais, mas também evidencia que as mulheres negras têm construído historicamente respostas coletivas capazes de transformar essa realidade.
“A presença e o impacto de nossa ação nos territórios e biomas se entrelaçam a uma teia global de guardiãs da vida contra o ecocídio e os genocídios cotidianos e sistêmicos. Nosso protagonismo demonstra que alternativas econômicas e políticas só podem nascer de um novo pacto civilizatório, impulsionado pela imaginação política radical das mulheres negras.”

WEBINÁRIO INTERNACIONAL ABRE A PROGRAMAÇÃO
A abertura da agenda será marcada pela realização do webinário internacional “Sujeitas do Fim do Mundo – Geopolítica e a Construção do Bem Viver: Um Projeto de Sociedade Global Forjado pelas Mulheres Negras”, nos dias 1º e 8 de julho.
Os encontros reúnem lideranças, intelectuais e ativistas negras de diferentes regiões do mundo para ampliar as trocas das mulheres negras e suas visões sobre elementos da geopolítica e de como estes contextos vem atravessando as populações negras do mundo. Além de intensificar as conversas sobre Reparação em todo o mundo, aprofundando sobre a distribuição das riquezas geradas a partir da exploração da mão de obra negra e africana.
O webinário inaugura uma série de encontros internacionais previstos para esta edição, fortalecendo os diálogos transnacionais que emergiram da Marcha Global e provocando a reflexão de uma ideia de futuro a partir da construção do Bem Viver como um horizonte ético político, a partir da imaginação radical das mulheres negras, em contraponto ao capitalismo racista patriarcal, à colonialidade, ao fascismo e ao genocidio antinegro. Ao mesmo tempo, o espaço vai estimular a reflexão sobre Reparação para além de compensações financeiras, exigindo mudanças estruturais que enfrentem a desigualdade racial.
JULHO DAS PRETAS NAS ESCOLAS
Outro destaque da programação é o Julho das Pretas nas Escolas, iniciativa criada em 2019 pelo Odara para fortalecer o enfrentamento ao racismo e às múltiplas violências que afetam meninas e adolescentes negras nos espaços educacionais.
Inicialmente realizado na Bahia, o projeto expandiu-se ao longo dos anos e atualmente mobiliza escolas do Nordeste e da Amazônia, em parceria com a Rede de Mulheres Negras do Nordeste e o CEDENPA – Centro de Estudos e Defesa do Negro do Pará.
Neste ano, serão 288 atividades, reafirmando que a Reparação também se constrói por meio da educação, do reconhecimento das histórias negras e da valorização dos saberes produzidos por meninas e mulheres negras. As programações completas da 14ª edição do Julho das Pretas e do Julho das Pretas nas Escolas podem ser acompanhadas pelo Instagram @julho_das_pretas.
Confira a agenda completa da edição:




