HIDROLÂNDIA, 06 DE SETEMBRO 2026
Nas águas entre o Cerrado e o Pantanal, emergem as mulheres negras do Centro-Oeste, irrigando outras possibilidades de autogestão e articulação política. Vivemos nos territórios das Unidades da Federação do Brasil Central, com biomas vastos e desafiadores, que estão sobre o Aquífero Guarani — berço das águas doces da América do Sul.
Assim, abrem-se os rios para a carta “Mulheres Negras do Centro-Oeste pelo Pacto do Bem Viver”, como uma direção que, a partir de nós mesmas, nos posiciona no horizonte político brasileiro e internacional.
Nos reconhecendo como um conjunto de energias que formam uma coletividade, somos o encontro de seis organizações, originárias do Distrito Federal, Goiás, Mato Grosso e Mato Grosso do Sul, filiadas à Articulação de Organizações de Mulheres Negras Brasileiras (AMNB), atuando ativamente pelos direitos de mulheres negras, nas terras e nas águas, contra o racismo, o machismo, por reparação e bem viver. Tendo como ferramentas a formação e a incidência política, a produção artístico-cultural e artesanal, a economia criativa e solidária, as marchas locais e o julho das pretas pela prevenção às violências, pela justiça climática e a preservação das memórias e saberes das mulheres negras da região.
Nossas Resistências e Territórios
Somos gestoras do impossível, nas terras raras de Tereza do Quariterê/de Benguela, Joanna Mina e Leodegária de Jesus, confrontando a realidade, horizontalizando utopias e construindo politicamente nos quilombos, nas comunidades tradicionais de matriz africana, em resistência frente ao racismo religioso, e ratificando a Aliança de Parentesco entre nós e as mulheres indígenas, como estratégia de cuidado e conexão contra as táticas exploratórias capitalistas que invadem nossos territórios e deslocam o que nos localiza enquanto povo.
Resistimos com nossas histórias, lutas e trajetórias em ambientes marcados pela hegemonia do agronegócio que gera o ecocídio, explorando o Cerrado e destruindo o Pantanal. Fazemos frente a um modelo de patriarcado moldado na dominação oligárquica do latifúndio, que impõe a monocultura e a exportação de commodities como sustentação de um modelo macroeconômico que sacrifica os modos tradicionais de vida, a agroecologia e a vida comunitária.
Denunciamos uma constante especulação imobiliária que afeta nossas vidas e a de nossas comunidades, territórios conflagrados pela inimizade pública, pela violência policial, pelo crime organizado e pelas milícias, que alimentam uma cultura de militarização e armamentismo.
Deste modo, reivindicamos por:
Urgência da reparação histórica e da consolidação da participação pública de mulheres negras na decisão sobre os rumos do Produto Interno Bruto (PIB), exigindo a destinação direta de recursos orçamentários para a justiça socioambiental, o fortalecimento do bem viver e a autonomia econômica de nossos territórios. Exigimos Justiça Climática e Transição Energética Justa, com a proteção rigorosa do Cerrado e do Pantanal — o berço das águas — contra o ecocídio do agronegócio, bem como a democratização da terra e habitação digna, garantindo acesso universal à moradia popular, fiscalização rigorosa de todo o ciclo habitacional social e a revisão participativa dos planos diretores de ordenamento territorial dos municípios.
Na pauta das políticas para as mulheres, lutamos pelo acesso simplificado a serviços públicos e infraestrutura, descentralização e acessibilidade na mobilidade urbana e nos locais de serviços essenciais como creches em territórios vulneráveis, além da criação de linhas de crédito e recursos de fomento para ações de base de mulheres negras, assegurando capilaridade e atendimento rápido nos bairros. Para a proteção e o enfrentamento à violência, reivindicamos a implementação de medidas protetivas urgentes e a inclusão da região no Pacto Nacional contra o Feminicídio, com projetos focados no atendimento às mulheres do Centro-Oeste. Também exigimos visibilidade e reconhecimento regional, rompendo com o preconceito, com os estigmas de atraso e com a invisibilidade da nossa região no cenário nacional, garantindo equidade no financiamento público e privado para superar a centralização de recursos nos grandes eixos do país.
Para nos orientarmos, agirmos, nos sustentarmos e nos comunicarmos, construímos redes e alianças estratégicas. Nosso caminho coletivo passa pelo fortalecimento e gestão integrada, priorizando a metodologia do autocuidado e cuidado mútuo como passo inicial e promovendo um olhar atento ao Mato Grosso e Mato Grosso do Sul, além de oferecer formação contínua para a gestão autônoma de projetos e instituições das nossas redes. Na articulação territorial e presença de campo por meio das Vozes do Cerrado, realizaremos encontros temáticos periódicos com visitas práticas nos territórios, fortalecendo a presença ativa de jovens e pessoas LBTIS em nossas organizações.
Na incidência política, formação e educação, vamos monitorar as políticas de ações afirmativas e educação antirracista, incidir firmemente contra a violência doméstica e participar de forma organizada nas consultas públicas sobre os direitos das mulheres. Por fim, na sustentação e conexão, desenvolveremos uma comunicação afirmativa que valorize e visibilize a dignidade e a luta das mulheres negras pantaneiras, cerradeiras, quilombolas e de matriz africana da região. Seguimos unidas, em rede, construindo o agora.
Pelo Centro-Oeste, pelo Cerrado, pelo Pantanal!
Mulheres Negras por Reparação e Bem Viver.




