Quando a terra clama, somos nós: mulheres negras e indígenas disputam o futuro da Amazônia

Do Rio Negro e do Andirá ao Guamá, elas mostram que o Bem Viver passa pelo direito de permanecer, decidir e narrar os próprios territórios

Por Kauana Portugal*

“Não creio que precisava partir da Amazônia”, responde a paraense Nilma Bentes quando é perguntada se a Marcha das Mulheres Negras precisava ter sido imaginada por uma mulher amazônida. Para a agrônoma e cofundadora do Centro de Estudos e Defesa do Negro do Pará, o CEDENPA, a proposta nasceu do “nível de inquietação da situação de invisibilidade que faz interpenetrar injustiças sócio-racial, de gênero e outras.”

A inquietação tem a escala de um bioma que ocupa cerca de 4,2 milhões de quilômetros quadrados do Brasil, quase metade do território nacional, e se estende por nove estados. A bacia amazônica atravessa oito países sul-americanos; 64% dela está em território brasileiro e concentra aproximadamente 80% do volume de água do país. Por 26 anos, Nilma analisou projetos rurais no Banco da Amazônia. Em um período de expansão do desmatamento financiado na região, incluía nos pareceres que assinava a cobrança pelo cumprimento do Código Florestal e pela preservação das reservas previstas em lei.

Foi desse percurso que, em 2011, Nilma propôs a Marcha Nacional das Mulheres Negras. O Bem Viver já estava na formulação original da mobilização: uma marcha de mulheres negras contra o racismo e pelo Bem Viver. É também desse lugar que ela questiona a imagem única da Amazônia. “Geralmente a Amazônia é pensada, de fora, apenas como indígena. De fato ela concentra a maioria de etnias indígenas, mas a maioria da população pode ser considerada negra, preta mais parda”, afirma.

Nilma Bentes, agrônoma e cofundadora do Centro de Estudos e Defesa do Negro do Pará.

Nilma ressalva os limites de classificações raciais formuladas a partir de referências brancas e não apaga a centralidade dos povos indígenas, mas recoloca no mapa uma Amazônia também negra, quilombola, ribeirinha, urbana e periférica. Em Unidades de Conservação da Amazônia Legal, pessoas autodeclaradas pretas e pardas, conjunto considerado população negra pelo Ministério da Igualdade Racial, somavam 81,58% dos residentes em 2022, segundo dados do Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE).

Em 10 de outubro de 2025, mulheres negras reunidas em Belém (PA) fundaram o Comitê de Mulheres Negras por Justiça Climática da Marcha Global das Mulheres Negras por Reparação e Bem Viver, e lançaram o manifesto “Quando a terra clama, somos nós”. No texto, as ativistas afirmam que não há justiça climática sem protagonismo de mulheres negras, quilombolas, indígenas e comunidades tradicionais, e reivindicam ar limpo, água potável, comida saudável e vida digna.

Na Terra Indígena Médio Rio Negro, no Amazonas, água, alimento, renda e participação política se encontram na trajetória da ativista Cleocimara Reis Gomes. Foi em uma oficina sobre preservação e conservação ambiental que ela começou a entender o movimento indígena.

No Rio Negro, a voz das mulheres

No ano de 2008, depois de concluir o ensino médio em Santa Isabel do Rio Negro, município localizado a cerca de 846 km de Manaus (AM), Cleocimara voltou à Comunidade Cartucho, uma localidade indígena ribeirinha situada na região. A bacia onde ela vive cobre cerca de 700 mil quilômetros quadrados, sendo mais de 90% da área no Brasil.

Filha de pai do povo Piratapuya e mãe Baré, foi nesse momento que a ativista foi convidada a integrar a diretoria do Departamento de Mulheres Indígenas do Rio Negro (DMIRN), ligado à Federação das Organizações Indígenas do Rio Negro (FOIRN).

“Eu disse que não sabia o que falar, o que fazer, porque eu estava ainda começando a entender. E aí me disseram: ‘Por isso mesmo que tu tem que aceitar, que tu vai participar, vai estar direto. E tu vai aprender mais rápido sobre o movimento indígena’. Eu aceitei o desafio. Eu sempre falo para as pessoas: mesmo eu sendo indígena, eu não conhecia o movimento indígena. Só em 2008 que eu fui entender, conhecer”, lembra, detalhando a entrada no ativismo, assim que retornou ao território, aos 20 anos.

Cleocimara Reis Gomes, ativista e coordenadora do Departamento de Mulheres Indígenas do Rio Negro

Cleocimara é hoje coordenadora do Departamento. Em 2002, mulheres de diferentes etnias o criaram durante um encontro em São Gabriel da Cachoeira (AM), município com a maior proporção de população indígena do país. Hoje, o DMIRN reúne mulheres de 23 povos em cerca de 750 comunidades

“No começo, a gente tinha o Departamento de Mulheres para cuidar somente do fortalecimento da geração de renda, que é a confecção do artesanato. Com o passar dos anos, a gente foi vendo que o Departamento precisava também entrar nesse controle social sobre as políticas públicas, sobre melhoria na saúde, na educação, articulação sobre o fortalecimento da bioeconomia”, diz.

Na área de atuação da FOIRN, o direito de participar das decisões acompanha uma disputa pelo próprio rio. Em 2022, um levantamento do Instituto Socioambiental identificou 20 requerimentos minerários ativos nas Terras Indígenas Médio Rio Negro I e II. Os pedidos não se referiam a pesquisa científica, mas a uma etapa da exploração mineral que busca identificar jazidas e avaliar seu aproveitamento econômico. A entidade pediu à Justiça Federal para integrar uma ação popular contra os requerimentos, argumentando que o leito do Rio Negro, embora excluído das demarcações nos anos 1990, integra o território vivido pelas comunidades. A abertura dessa frente sem consulta, alertavam as lideranças, estimularia o garimpo ilegal. O caso continua em discussão em uma ação movida pelo Ministério Público Federal contra a Agência Nacional de Mineração.

Participar, nesse sentido, não elimina a distância simbólica entre territórios e mesas de deliberação. “Os espaços de decisão são muito fechados e eles são muito caros materialmente para que você esteja lá”, afirma Cleocimara. Um exemplo disso foi a COP30, a 30ª Conferência das Nações Unidas sobre Mudança do Clima, realizada em Belém em novembro de 2025. A Articulação dos Povos Indígenas do Brasil (APIB) estimou a presença de cerca de 2,5 mil indígenas brasileiros na cidade, mas apenas 360 (14%) receberam acesso à Zona Azul, onde ocorreram as negociações formais. As credenciais permitiam acompanhar debates e circular pelo espaço, mas não davam direito a fala, voto ou participação em reuniões fechadas.

Os limites à participação que Cleocimara aponta também começam antes das mesas de negociação. Para as comunidades rionegrinas, os ciclos de cheia e vazante definem se é possível ir e voltar, plantar ou acessar serviços públicos. É um desafio que se repete em outras comunidades da bacia amazônica. No Rio Andirá, afluente do Amazonas, Santa Tereza do Matupiri é uma das comunidades quilombolas de Barreirinha, no Baixo Amazonas. Ali, a seca abriu uma cacimba e levou a comunidade a chamar a imprensa para conseguir água e energia.

“Tudo que a gente já carrega”

Professora na Escola Municipal Quilombola Santa Tereza, também em Santa Tereza do Matupiri (AM), e coordenadora estadual da CONAQ no Amazonas, Tarciara Raquel dos Santos Castro entrou na militância entre 2012 e 2013. Dava aulas de Geografia quando uma equipe da Cartografia Social da Amazônia chegou ao quilombo, durante a segunda etapa técnica do relatório de identificação e delimitação do território. Depois, Maria Amélia, uma das referências da luta no Andirá, chamou Tarciara e outro educador para ajudar com a documentação.

“Não entendia muito a luta, mas comecei a participar das oficinas”, lembra. Quando fala de quem a levou a permanecer no movimento, Tarciara retorna às mulheres de sua família. “Trago minha mãe na questão da medicina caseira. Uma mulher muito forte, de fé, que acredita nas ervas medicinais, na natureza. E outras pessoas que eu trago são Maria Amélia e as minhas tias, mulheres fortes, artesãs, farinheiras, que dominam muito a prática da medicina caseira. São elas que inspiram e nos incentivam a lutar pelo território, pelos direitos quilombolas”.

Tarciara Raquel dos Santos Castro, professora, liderança quilombola e coordenadora estadual da CONAQ no Amazonas

O Território Quilombola do Rio Andirá está delimitado, mas a titulação ainda não foi concluída, uma espera que não é exceção no mapa amazônico. Em levantamento participativo publicado em 2025, a CONAQ e o Instituto Socioambiental identificaram 632 territórios e 2.494 comunidades quilombolas na Amazônia Legal, número 280% maior que os 166 territórios registrados na base do Instituto Nacional de Colonização e Reforma Agrária (Incra), usada como comparação.

A pendência fundiária atravessa uma região em que a disputa pela terra também alcança a água: em 2025, a Comissão Pastoral da Terra (CPT) registrou 824 conflitos no campo na Amazônia Legal. Entre as ocorrências por terra, houve 131 invasões e 119 ameaças de expulsão; entre as disputas por água, garimpeiros, fazendeiros e mineradoras aparecem entre os agentes apontados pela entidade. Já os afetados, são indígenas, quilombolas, ribeirinhos, extrativistas e pescadores.

No ano passado, o rio secou pela primeira vez em Santa Tereza. A estiagem coincidiu com uma semana sem energia elétrica e deixou a comunidade sem água potável, segundo o relato de Tarciara. “A luta é difícil. A seca foi constante no ano passado. A gente buscou estratégias para que chegasse água potável para nós. Fiz entrevistas, chamei jornal para divulgar nossa realidade, porque a gente estava sofrendo uma semana sem energia elétrica e sem água potável. A gente foi para o recurso dos saberes ancestrais, que é o método da cacimba”, desabafa.

A cacimba foi aberta junto a um olho d’água, de onde a comunidade tirou a água para o consumo enquanto aguardava uma resposta. “Apesar de estar no Amazonas, num rio que tem água abundante, a água potável é um fator que tem preocupado a gente”, explica Tarciara. Para se ter ideia, em 2022, 96,9% dos moradores de territórios quilombolas oficialmente delimitados na Amazônia Legal viviam com alguma precariedade no abastecimento de água, na destinação do esgoto ou na coleta de lixo, conforme o IBGE.

Para que a falta d’água não se transforme também em falta de comida, as mulheres recorrem ao cultivo. “As mulheres já têm essa preocupação de plantar. Todas as sementes que vêm, a gente leva para plantar nos quintais. Tem as hortaliças, as árvores frutíferas, as plantas medicinais. As mulheres têm muito esse lado de preservar, cuidar, plantar, cuidado também com o rio, com a floresta, esse respeito todinho”, relata Tarciara.  

De acordo com a classificação da Embrapa, quintais agroflorestais são como sistemas voltados à manutenção do equilíbrio ecológico, com o manejo associado à diversificação da produção, ao reforço da alimentação das famílias e à sustentabilidade ambiental. Na memória que Tarciara guarda da sua comunidade, essa relação antecede o vocabulário técnico: “Esse pertencimento dos territórios, o cuidar de manter as nossas memórias, nossa ancestralidade, nossos saberes, de preservar a floresta, o rio, os animais. Tudo que a gente já carrega.”

Nilma Bentes menciona essa disputa no sentido político que atribui ao Bem Viver. “Os princípios do Bem Viver foram inclusos para vincular as questões raciais com a necessidade de acabar com a camada da pobreza e da riqueza. Só há riqueza porque existe pobreza e vice-versa”, afirma. Entre os princípios que cita estão a não mercantilização da água, do ar e dos bens comuns, o reconhecimento dos direitos da natureza e a defesa de que a economia esteja submetida à ecologia.

Para quê serve a utopia?

Quando Tarciara chamou a imprensa para contar que Santa Tereza do Matupiri estava sem energia e sem água potável, ela tentava fazer a emergência do Andirá atravessar os limites da comunidade. Em Belém, Tainá Barral parte de uma pergunta próxima: quem tem condições de narrar o que acontece no próprio território?

Nascida e criada no bairro do Guamá, periferia de Belém, Tainá estudou Comunicação Social, sendo a primeira da família a chegar à universidade. “A minha história é muito parecida com a de muitas meninas negras da nossa geração, de ser a primeira a entrar na universidade. Minha educação foi muito no bairro, estudar no bairro. A universidade foi muito perto, de bike, a pé. E de ficar aqui no território”, conta.

O território onde ela se formou é parte de uma Amazônia urbana, construída sobre baixadas, margens e ocupações populares. Em 2022, o Censo identificou 1.694 Favelas e Comunidades Urbanas na Amazônia Legal, onde viviam cerca de 3,8 milhões de pessoas. 

Tainá Barral, comunicadora popular e coordenadora da Na Cuia.

Na universidade, Tainá se aproximou das organizações de mulheres e do CEDENPA, fundado por Nilma Bentes, Zélia Amador e Felisberto Damasceno em 1980. Também ajudou a organizar, pelo centro acadêmico, um encontro de estudantes de Comunicação e Negritude voltado à Amazônia. “Antes de eu entrar n’A Cuia, eu fazia muito essas coisas de ativismo, de ocupação estudantil, greve de estudantes. A gente era muito militante”, lembra.

A Na Cuia, iniciativa que Tainá coordena hoje, nasceu como revista universitária e tornou-se uma associação cultural de comunicação popular em Belém. O coletivo atua em uma região em que a falta de veículos locais ainda é extensa: em 2025, 193 dos 450 municípios do Norte eram desertos de notícias, sem nenhum veículo jornalístico local; outros 144 contavam com apenas um ou dois. É nesse vazio que a associação cria o Comitê de Comunicadores Populares de Belém, com formações para comunicadores de bairros, comunidades e cidades fora dos centros de produção de informação.

“Somos nós, as pessoas dos territórios, que devem participar da elaboração das agendas. A resposta precisa contar com quem tem a maior sabedoria, que é a do cotidiano. Todo mundo pode ser comunicador. Todo mundo consegue formar as suas narrativas a partir dos territórios. Não deixar que as pessoas venham de fora e apenas produzam narrativas a partir de lá”, explica. O desejo, agora, é criar um ecossistema de correspondentes.

A ideia de que as narrativas da Amazônia partam de seus próprios territórios ainda pode parecer utópica, especialmente para setores da mídia hegemônica. Apesar disso, ao projetar o que considera possível para as mulheres negras amazônidas, Nilma Bentes recorre à frase atribuída ao cineasta Fernando Birri e difundida por Eduardo Galeano: “A utopia está lá no horizonte. Me aproximo dois passos, ela se afasta dois passos. Caminho dez passos e o horizonte corre dez passos. Por mais que eu caminhe, jamais alcançarei. Para quê serve a utopia? Serve para isso: para que eu não deixe de caminhar.”

*Este é o primeiro texto da série “Heroínas da Justiça Climática: Série de reportagens sobre Mulheres Negras em defesa de seus biomas”. Ao longo de seis reportagens, apresentaremos histórias de ativistas negras que constroem estratégia de cuidado, preservam saberes ancestrais e enfrentam o racismo socioambiental para proteger seus territórios.

A série é produzida pelo Comitê de Mulheres Negras por Justiça Climática da Marcha Global das Mulheres Negras por Reparação e Bem Viver, em parceria com a Articulação de Organizações de Mulheres Negras Brasileiras (AMNB), a Coordenação Nacional de Articulação das Comunidades Negras Rurais Quilombolas (Conaq), a Rede de Mulheres Negras do Nordeste, o Centro de Estudos e Defesa do Negro do Pará (CEDENPA) e a Revista Afirmativa.

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