Na condição de fiadoras de um projeto de país, nós, mulheres negras brasileiras, apresentamos o manifesto “Pacto do Bem Viver e as Eleições 2026” que sintetiza os princípios que nos regem e as propostas que nos orientam. É preciso reafirmar o nosso compromisso com um pacto federativo no qual nossa participação efetiva nas raias do poder seja vista como inegociável, o que faz das reivindicações históricas dos feminismos negros nesse campo uma urgência política e um imperativo ético.
Este texto-manifesto é uma expressão coletiva dos anseios das mulheres negras brasileiras com os quais disputamos um projeto de país. Sabemos o quanto anos de eleições, principalmente os que envolvem a escolha para a presidência da República, são janelas de oportunidades para se pensar os rumos do país, avaliar as políticas em curso e colocar em cena projetos que se mostram capazes de promover a ampliação dos direitos e a dignidade da vida coletiva.
Neste 2026, o pleito presidencial no Brasil não diz respeito somente ao próximo governante, que vai comandar o país por mais quatro anos, mas antecipa uma questão essencial: como reorganizar o campo político para 2030? Pensar o hoje e o amanhã, considerando as mudanças na paisagem da política institucional brasileira, exige que avancemos mais e mais. Nós, mulheres negras, vimos incidindo nesse jogo de temporalidades em que, simultaneamente, propomos projetos para a política de plantão e apontamos saídas que vão além dos limites da institucionalidade.
Para o presente e o futuro em disputa, acumulamos experiências e sistematizamos práticas que estão à altura do nosso tempo, marcado por ameaças vindas de vários focos. Não é mais novidade para ninguém o quanto nós, mulheres negras, desempenhamos papel fundamental nas eleições, com peso decisivo na vitória de projetos que sinalizam, mesmo que de maneira incompleta, para a emancipação, a inclusão e o exercício da cidadania.
Mas é necessário ir além. É preciso que não sejamos vistas apenas como as sujeitas que, pelo voto, garantem o ambiente de diálogo (impedindo o triunfo do que há de pior) ou que sejamos tomadas simplesmente como destinatárias das políticas públicas voltadas para a diminuição das desigualdades. É fundamental que a nossa importância na vida política seja vista no âmbito da nossa capacidade de gestão e de imaginação, o que torna nossa presença nas casas legislativas e no executivo prioridade absoluta. É inadmissível que em pleno 2026 as candidaturas negras, especialmente as femininas, sigam rebaixadas na política institucional, com recursos praticamente inexistentes e submetidas aos jogos da política sem responsabilidade pública. efetiva.
É igualmente inadmissível que oligarquias políticas continuem exercendo monopólio em vários territórios do país, expandindo de forma tentacular o poder que exercem, mantendo privilégios e fabricando incessantemente desigualdades e exclusões. A ausência de mulheres negras nas majoritárias estaduais é flagrante vergonhoso de um país que segue mantendo o racismo e o sexismo na dinâmica das escolhas eleitorais. Não é sem motivo que o debate sobre Reparação torna-se inadiável para corrigir essa anomalia histórica que impacta negativamente no real desenvolvimento do país, relegando um grupo populacional expressivo (somos 28% da população brasileira, o que equivale a 58 milhões de pessoas) a níveis de iniquidades inadmissíveis para um país que almeja ser efetivamente uma Nação.
Ecoamos também neste manifesto o que vimos reivindicando ao longo de décadas, com destaque para a educação (acesso e permanência, manutenção e ampliação das políticas de ação afirmativas), o fim das violências que recaem de forma prevalente sobre as mulheres negras (feminicídio, violência obstétrica, violência simbólica), universalização do atendimento à saúde, segurança alimentar, justiça climática, participação nos sistemas de visibilidade coletiva, combate ao racismo religioso, gestão da cadeia criativa e produtiva da cultura…
Todas essas demandas supõem outra forma de gestão e concepção da coisa pública, que inclui o protagonismo das mulheres negras nos espaços institucionais, como já assinalamos, mas também outros modos de relação entre os poderes executivo e legislativo, outros parâmetros para escolha e execução do orçamento público, reescalonamento das prioridades do país de modo que o orçamento impositivo do congresso, experiência única e escandalosa no mundo, deixe de existir definitivamente.
Já que, para nós, política não é só gestão, mas também imaginação, consideramos necessário irmos além da moldura estabelecida num contexto de pobreza de imaginários no que diz respeito às propostas dos postulantes ao executivo e ao legislativo. Para além das preocupações com o novo pacto fiscal e os destinos da reforma tributária, é preciso pensar nos limites da democracia representativa e produzir uma renovada gramática política que seja realmente nova. Desse modo, falar de eleições no Brasil é também pensar o mundo.
Qualquer exame que se faça do contexto global terá que colocar a questão ambiental no centro do debate. Não há sombra de dúvidas que a era das catástrofes vem impondo desafios sobre os modos de organização da sociedade. Precipitada por um capitalismo predatório, especista, a emergência climática é a face aberrante de uma época feroz que avança dilapidando o planeta.
A ascensão do populismo, do tecnoautoritarismo e da extrema-direita vêm corroendo ainda mais as bases das democracias liberais ocidentais, exigindo que imaginemos outros modos de governo coletivo.
Não temos dúvidas que o Pacto do Bem Viver, construído pelas mulheres negras na diáspora, vem se mostrando como uma plataforma consistente capaz de fazer frente a um capitalismo cispatriarcal, heteronormativo. Reivindicamos uma concepção de vida que não é percebida exclusivamente pelo nexo econômico. Do Bem Viver emerge um novo código sociopolítico em que a justiça, a equidade e o bem-estar são valores inegociáveis. Inspiradas nas concepções milenares que dão sustentação ao termo, adotamos renovados modos de gestão do coletivo e do individual, da natureza e da cultura, orientadas por uma perspectiva utópica do significado da vida.
Num contexto de guerra híbrida, de capitalismo financeiro-algorítmico, que avança sobre nossas subjetividades, de um neoimperialismo que mostra suas garras nos países da América Latina – elementos que tem no poder econômico e bélico sua base de sustentação – defendemos um pacto federativo que reconheça a pluralidade do Estado brasileiro.
Tal reconhecimento exige que novas estratégias e táticas, novos princípios e conceitos sejam adotados. Trata-se de uma mudança substantiva que encontra no protagonismo das mulheres negras e de outros grupos historicamente discriminados uma importante alavanca para que as propostas voltadas para a emancipação do país reconheçam que acontecimentos históricos, como a escravidão, promovem desigualdades abissais que se perpetuam até hoje. A ausência de políticas de amparo e compensação à população negra no pós-abolição favoreceu o agravamento das desigualdades. O diálogo com o Estado deve partir deste reconhecimento, sem o qual o país não avançará. É impossível falar de eleições sem tocar o dedo nesta ferida aberta que sangra o país.
Desse modo, nós, mulheres negras brasileiras, reatualizamos as vozes ancestrais que sonharam e lutaram por um país melhor e marcamos, neste manifesto, nossa posição para que o Pacto do Bem Viver seja um horizonte inescapável dos projetos e propostas políticas que moldam o cenário eleitoral.
Brasília, 26 de agosto de 2026




