Assembleia Geral da AMNB 2026: Mulheres Negras reafirmam Projeto Político por Reparação e Bem Viver

Encontro aconteceu nos dias 27 e 28 de março. Com 26 anos de atuação, a AMNB consolida-se como um espaço fundamental de incidência política e defesa de direitos

Por Brenda Gomes | Redação AMNB

Nos dias 27 e 28 de março, a Articulação de Organizações de Mulheres Negras Brasileiras (AMNB) realizou sua Assembleia Geral, em Recife (PE), reunindo mulheres de diversos territórios do país. O encontro, marcado por trocas, análises de conjuntura e decisões estratégicas, reafirmou o compromisso coletivo com a luta pela reparação histórica e pelo Bem Viver. Com 26 anos de atuação, a AMNB consolida-se como um espaço fundamental de incidência política e defesa de direitos.

A programação teve início na sexta-feira (27) com uma abertura ancestral, seguida de uma dinâmica de apresentação que destacou a diversidade e a potência das participantes. A construção de um ambiente acolhedor aconteceu por meio de um acordo de convivência focado na escuta, no cuidado, no respeito intergeracional e no compromisso coletivo.

ANÁLISE DE CONJUNTURA E DESAFIOS POLÍTICOS

Durante as mesas de debate, líderes do movimento refletiram sobre os desafios impostos pela atual conjuntura política e social. Valdecir Nascimento, cofundadora do Odara – Instituto da Mulher Negra (BA), provocou reflexões sobre a representatividade e a capacidade de articulação da AMNB diante de um cenário eleitoral que posiciona na liderança aquelas candidatas verdadeiramente comprometidas com a agenda das mulheres negras. Ela enfatizou a importância de estabelecer alianças estratégicas.

“A assembleia evidenciou o impacto real da AMNB no Brasil. Chegaram energias novas, organizações e pessoas que trazem outra dinâmica. A presença de mulheres trans, quilombolas, lésbicas, bissexuais na coordenação significa que crescemos e ampliamos nosso olhar para a verdadeira diversidade de mulheres negras”, afirmou Valdecir.

A conjuntura política também foi abordada por Nilma Bentes, uma das fundadoras do Centro de Estudos e Defesa do Negro do Pará (Cedenpa/PA), que levantou a discussão sobre a necessidade de revisão às estruturas políticas atuais. Ela mencionou a ideia de criação de um partido ressaltando que, mesmo diante de descrenças em relação a essa forma de organização, a análise do cenário atual exige a inserção nesse meio político, para garantir que a pauta das mulheres negras ocupe os espaços de decisão.

Jurema Werneck, diretora executiva da Anistia Internacional no Brasil,  trouxe à tona a indignação diante do genocídio da população negra e as taxas de feminicídio que atingem de forma desenfreada as mulheres negras. Relembrou ao grupo sobre as faces da violência política de raça e gênero, a partir da trajetória da vereadora  Marielle Franco, destacando-a como fruto da primeira marcha. Jurema convocou ativistas de todos os espaços a saírem da zona de conforto do ativismo digital, alertando que a indignação seletiva e restrita às redes sociais não salva vidas.

“Eu sou movida pela indignação, nós somos movidas pela indignação, portanto somos da mesma tribo. Botar o pente quente na gaveta não salva a vida de ninguém”, alertou Jurema.

MEMÓRIA, CUIDADO E ENFRENTAMENTO AO RACISMO

A preservação da memória e a luta contra o apagamento histórico foram temas centrais. O cuidado e a ancestralidade foram apontados por Benilda Brito, do Nzinga Coletivo de Mulheres Negras, como ferramentas de cura e resistência contra o racismo institucional. Ela lembrou que, apesar de forjadas na resistência, as mulheres negras enfrentam tentativas constantes de apagamento, destacando a necessidade de políticas públicas.

“Sabemos a importância da nossa luta, saímos de uma marcha belíssima e forte em 2025 e agora precisamos colher os frutos dela e garantir que esse país implante políticas públicas de combate ao racismo e sexismo”, afirmou Benilda.

Lúcia Xavier,  reforçou que a estrutura do Brasil, baseada no racismo e no patriarcado cis-heteronormativo, precisa ser superada. Ela alertou que mesmo em ambientes confortáveis, a estrutura racista continua operando. “Se essa estrutura violenta, viola e mata, ela não nos serve. Mesmo que eu esteja inserida em bons locais de trabalho, moradia e salários dignos, ela segue discriminando, violentando e matando todos nós”, pontuou.

Ela complementou sua reflexão destacando que a falta de letramento racial não é justificativa para o racismo, pois este é a base do processo. “Vivemos em um estado racista, baseado no racismo. Nenhuma estrutura está desvinculada desse processo. Nosso projeto de Bem Viver anuncia a destruição desse padrão de organização do mundo”, afirmou Lúcia.

INCLUSÃO, RENOVAÇÃO E FUTURO

A assembleia também foi um marco de renovação. A ampliação do olhar para a diversidade prática foi reforçada por Caiene Reinier, coordenadora do Coletivo Xica Manicongo na Universidade Federal de Goiás, que destacou que a confluência entre mulheres trans e cis é um avanço significativo. “Entendemos que as travestis negras são filhas de homens e mulheres negros. 82% das travestis assassinadas no Brasil são negras; antes da transvestilidade, é a raça que chega”, explicou Caiene.

A jornalista Andresa Franco, da Revista Afirmativa, que se filiou à AMNB durante o evento, destacou o papel histórico da articulação e a relevância da comunicação para o movimento. “A AMNB é um espaço histórico na articulação e lutas políticas das mulheres negras. A Afirmativa sempre foi esse espaço de registro das lutas políticas do movimento de mulheres negras, a partir da agenda da comunicação, que sempre foi tão cara para o movimento de mulheres negras, consideramos esse momento muito importante para a nossa história”, comemorou Andresa.

Janira Sodré, ativista da Coletiva Pretas de Angola, enfatizou que a AMNB refunda seu diálogo com foco na reparação e no Bem Viver, ampliando a participação social das mulheres negras na política e em redes internacionais. E explica que “sem as mulheres negras, esta nação não pôde existir, não pode existir e tampouco poderá imaginar o seu futuro”.

“A AMNB inaugura e refunda seu diálogo afirmando que estamos do lado de cá do futuro. Um futuro orientado por uma visão política de reparação e Bem Viver, construída a partir da experiência histórica e da ação coletiva das mulheres negras. Esse caminho se fortalece na medida em que ampliamos os espaços de participação social e política das mulheres negras, desde os nossos territórios locais, no Brasil e em articulação com a América Latina e o Sul Global”, destaca Janira. 

ENCAMINHAMENTOS E REESTRUTURAÇÃO

O segundo dia de encontro (28) foi dedicado a questões estruturais e organizacionais. Foram discutidas sugestões de mudanças no regimento da AMNB, incluindo a especificação de termos relacionados à diversidade (como lesbofobia, transfobia e bifobia), a definição clara das funções da gestão e a construção de uma carta de princípios.

A assembleia também definiu a nova coordenação por região,  que  irá compor a gestão dos próximos quatro anos, consolidando os próximos passos da caminhada da AMNB em defesa dos direitos das mulheres negras no Brasil.

Região Sul – Akanni
Região Sudeste – N’zinga
Região Norte – Articulação ALAGBARÁ
Região Nordeste – Rede de Mulheres Negras de Pernambuco
Região Centro-Oeste – Instituto Pretas 

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