A agenda da 8ª edição do Março de Lutas, mobilização de incidência política dos Movimentos de Mulheres Negras no Brasil, já está no ar. Com o tema “Seguimos em Marcha pela Vida das Mulheres Negras”, a programação deste ano reúne 130 atividades, realizadas por 70 organizações, grupos e coletivos, que acontecerão entre os meses de março e abril em 18 estados (incluindo o Distrito Federal), ao longo dos meses de março e abril. A agenda completa pode ser acessada clicando aqui.
A programação inclui rodas de conversa, exposições fotográficas, oficinas, seminários, encontros, formações e ações culturais realizadas em diferentes municípios do país, além de atividades virtuais de alcance nacional e internacional. As iniciativas conectam territórios, saberes e estratégias de enfrentamento ao racismo patriarcal, fortalecendo uma rede comprometida com a defesa da vida e dos direitos das mulheres negras.
Para as organizações que constroem a iniciativa, o tema desta edição reflete a urgência do momento. Segundo o Anuário Brasileiro de Segurança Pública 2025, 63,6% das vítimas de feminicídio no Brasil são mulheres negras, em sua maioria jovens, assassinadas dentro de casa e frequentemente por companheiros ou ex-companheiros.
Para Thaís Vidal, ativista da Abayomi – Coletiva de Mulheres Negras da Paraíba e integrante da Rede de Mulheres Negras do Nordeste, o Março de Lutas se consolida como uma estratégia fundamental de incidência política diante desse cenário.
“O Março de Lutas deste ano escancara uma realidade que não pode mais ser naturalizada: a violência sistemática contra as mulheres negras. Vivemos um contexto em que o Brasil registra o maior número de feminicídios dos últimos dez anos, revelando que a vida das mulheres segue sob ameaça constante e que essa violência tem cor, território e classe social”, afirma.
Para Lúcia Azevedo, ativista da Rede de Mulheres Negras do Maranhão e integrante dos grupos de trabalho de Enfrentamento à Violência da Rede de Mulheres Negras do Nordeste, a edição de 2026 também marca um momento político importante após a mobilização nacional das mulheres negras.
“O Março de Lutas de 2026 demarca a retomada da luta das mulheres negras a partir do nosso projeto coletivo de sociedade, reafirmado na Marcha das Mulheres Negras por Reparação e Bem Viver, em Brasília. É um marco que mostra que seguimos inteiras, vivas e organizadas na luta. Quando uma mulher negra é assassinada, não é apenas uma vida que se perde: são famílias, comunidades e territórios que perdem uma liderança, uma mãe, uma avó, uma tia”, destaca.
A ativista também ressalta que a democracia só se fortalece quando mulheres negras ocupam os espaços de decisão.
“A democracia no Brasil, na América Latina e no mundo não sobreviverá sem que mulheres negras e indígenas estejam no centro das discussões, das políticas públicas e dos espaços de poder. O Março de Lutas representa esse fôlego coletivo, essa retomada histórica de luta por reparação e bem viver.”
Violências que atravessam a vida das mulheres negras
O feminicídio é parte de um cenário mais amplo de violações de direitos que impactam desproporcionalmente as mulheres negras no Brasil. Além da violência letal, elas estão entre as principais vítimas da precarização do trabalho, da violência obstétrica, do encarceramento em massa e da insegurança alimentar.
Dados do Levantamento Nacional de Informações Penitenciárias (Infopen) indicam que entre 62% e 68% das mulheres privadas de liberdade no país são negras, evidenciando como o sistema de justiça criminal opera de forma racializada. No campo da saúde, mulheres negras apresentam risco de morte materna cerca de duas vezes maior que mulheres brancas.
As desigualdades também se expressam nas condições materiais de sobrevivência. Pesquisas da Rede Brasileira de Pesquisa em Soberania e Segurança Alimentar e Nutricional (Rede PENSSAN) apontam que domicílios chefiados por mulheres negras estão entre os mais afetados pela fome e pela insegurança alimentar grave.
Apesar de exercerem papel central na sustentação de famílias, comunidades e territórios, mulheres negras seguem sub-representadas nos espaços de poder e decisão política, evidenciando como as estruturas sociais e institucionais ainda operam a partir de profundas desigualdades raciais e de gênero.
Sobre o Março de Lutas
Criado em 2019 pelo Odara – Instituto da Mulher Negra, o Março de Lutas é construído pela Articulação de Organizações de Mulheres Negras Brasileiras (AMNB), a Rede de Mulheres Negras do Nordeste e a Rede Fulanas – Negras da Amazônia Brasileira, consolidando-se como uma importante estratégia de articulação política, troca de experiências e construção coletiva entre organizações e ativistas de todo o país.
A mobilização acontece poucos meses após a Marcha das Mulheres Negras por Reparação e Bem Viver, realizada em novembro de 2025, em Brasília, quando 300 mil mulheres negras ocuparam as ruas para reivindicar justiça racial, dignidade e reparação histórica.
Acesse a agenda completa da 8ª edição do Março de Lutas em: https://amnb.org.br/marcodelutas/




