A posse da deputada Erika Hilton (Psol-SP) na presidência da Comissão de Defesa dos Direitos da Mulher da Câmara dos Deputados representa um marco importante na luta por direitos, dignidade e justiça para todas as mulheres no Brasil. Trata-se da primeira mulher trans a ocupar esse cargo, um passo fundamental para a ampliação da representatividade e para a construção de políticas públicas que reconheçam a pluralidade das vivências das mulheres no país.
Erika Hilton tem feito de sua trajetória política um instrumento de defesa da vida e da democracia. Sua presença à frente da Comissão reafirma que os espaços de representação e poder também pertencem às mulheres negras, trans e travestis, historicamente excluídas dos processos de decisão política.
A Comissão de Defesa dos Direitos da Mulher da Câmara dos Deputados foi criada em 2016 e, ao longo de uma década de existência, esta é a primeira vez que uma mulher negra assume sua presidência. Esse dado, por si só, revela muito sobre a forma como os espaços institucionais de poder no Brasil ainda reproduzem desigualdades históricas de raça, gênero e classe.
Durante anos, a condução da comissão esteve majoritariamente nas mãos de mulheres brancas, cisgêneras e heterossexuais, muitas vezes sob a premissa de que poderiam representar a totalidade das experiências femininas no país. As vivências de mulheres negras, indígenas, periféricas, trans e trabalhadoras são atravessadas por múltiplas formas de desigualdade que demandam olhares, prioridades e experiências diversas na formulação de políticas públicas.
Infelizmente, esse momento de avanço democrático tem sido acompanhado por lamentáveis ataques de ódio, como as declarações transfóbicas feitas em rede nacional. Fato no qual manifestamos a nossa total solidariedade à deputada Erika Hilton e a todas as pessoas trans e travestis que enfrentam diariamente a transfobia, a violência e a negação de direitos em nossa sociedade.
Esse cenário torna-se ainda mais grave quando observamos os dados sobre a violência no país. O Brasil lidera, pelo 16º ano consecutivo, os índices globais de assassinatos de pessoas trans, sendo a maioria das vítimas mulheres trans negras, jovens e nordestinas.
Segundo o estudo Retrato dos Feminicídios, entre 2021 e 2024, 62,6% das vítimas de feminicídio no país eram mulheres negras. Apenas em 2025, o Brasil registrou 1.568 vítimas desse crime, sendo 60% delas também negras. A taxa de homicídios de mulheres negras chega a 7,2 por 100 mil habitantes, mais que o dobro da registrada entre mulheres brancas.
Trata-se de uma realidade que evidencia o quanto o racismo patriarcal cis e heteronormativo continua colocando vidas em risco. Diante dessa realidade brutal, a presença de Erika Hilton na presidência da Comissão da Mulher não é apenas simbólica, é uma questão de sobrevivência, de justiça e de compromisso com a construção de políticas públicas que enfrentem as múltiplas formas de violência que atravessam a vida das mulheres no país.
Também é urgente enfrentar a falácia de que “mulher” é uma categoria exclusivamente biológica. Ser mulher é, antes de tudo, uma experiência social, histórica e política. Não aceitaremos que o ódio e a transfobia silenciem quem luta por direitos. Seguiremos firmes, juntas e juntes, na defesa da vida, da dignidade e do respeito às mulheres em sua diversidade.
Em seu discurso de posse, Erika Hilton destacou a importância de abordar todas as mulheres “sem exceção na sua dignidade e na sua pluralidade”. Sua gestão promete enfrentar a violência patriarcal e misógina, inclusive combatendo a disseminação de discursos de ódio e conteúdos misóginos nas redes digitais, como os chamados conteúdos “red pill”. Ao afirmar que mulheres trans e travestis não serão abandonadas nas discussões da comissão, Erika marca uma postura política na busca por reparação histórica.
Como afirmado na Marcha das Mulheres Negras por Reparação e Bem Viver, em 2025, nós somos diversas! Erika Hilton é expressão viva dessa diversidade e da força que ela traz para a política brasileira. Chegou o tempo de reconhecer que mulheres trans e travestis estão e continuarão ocupando, de igual para igual, os espaços de decisão que também lhes pertencem.
Todo o nosso apoio à Erika!
Odara – Instituto da Mulher Negra
Articulação de Mulheres Negras Brasileiras (AMNB)
Rede de Mulheres do Nordeste
Marcha das Mulheres Negras por Reparação e Bem Viver




